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Imprensa, gêneros discursivos e o tempo capitalista

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tomando como referência o entendimento epistêmico ao qual o particular se explica no geral e vice-versa, remetemos os gêneros discursivos em um movimento de volta da totalidade para uma síntese complexa. Nos parece mais indicado realizar essas reflexões tendo como referência as formas abstratas do pensamento como forma de explicar um objeto real apresentado à priori.

A análise dos gêneros discursivos nos classificados de jornais tem como referência fundamentos caros às interpretações epistemológicas no campo do materialismo histórico dialético. Essa afirmação se refere ao próprio sentido de pertencer à espécie humana. A espécie humana se distingue dos animais quando produz de forma consciente a sua própria vida material. Marx afirma que o ser social pode se distinguir dos animais tanto pela consciência, como pela religião, ou por qualquer outro fenômeno que se queira utilizar, mas ele se entende enquanto tal quando produz de forma consciente os meios para a sua própria sobrevivência.

Nesse sentido, a existência humana se explica pelo caminho que a criou. Em outras palavras, o ser social ao transformar a sua produção e intercâmbio material transforma também a sua forma de conceber o mundo e a sua própria realidade, concebendo uma nova cultura. Esse processo só acontece quando desenvolve a sua produção material enquanto processo essencialmente humano.

Marx e Engels em A Ideologia Alemã demonstraram que não é a consciência o ator determinante da vida, mas sim o seu oposto. A materialidade das relações sociais se expressa na história, construção humana por excelência. A história não é uma coleção de fatos desprovidos de vida como imaginam os empiristas, ou algo imaginário como acreditam os idealistas.

Tomando como referência a história em movimento e contradição, os gêneros discursivos nos classificados de jornal tem uma existência objetivada, independente da existência daquele que o investiga. Essa existência objetivada coloca ao pesquisador o desafio de descobrir a essência do objeto investigado, suas continuidades, rupturas e contradições. Os classificados de jornal ao expressarem as concepções de mundo daqueles que o elaboravam expressaram um entendimento classista do mundo em que se vivia.

Essa afirmação é essencial para o estudo que aqui desenvolvemos. Os classificados não são sobrenaturais, mas sim produtos sociais que expressam a ideologia das frações de classe hegemônicas do seu tempo. A busca essencial daquilo que os gêneros discursivos realmente são coloca aos pesquisadores o desafio de entendê-los como uma manifestação histórica, fugindo a qualquer princípio da neutralidade, seja na objetivação dos classificados, seja na interpretação dos pesquisadores que investigam e analisam a partir de algum lugar.

A análise que aqui se realiza tem como fundamento a negação de processos narrativos do objeto investigado. Ao afirmamos que os gêneros discursivos estudados expressam a totalidade do seu tempo, temos como referência que eles sintetizam as múltiplas determinações do seu tempo. A busca essencial daquilo que realmente o são passa pela recuperação das contradições que o compõem, condição essencial para fugirmos das armadilhas e ilusões da aparência. Como bem afirmou Marx, caso a aparência fosse similar à essência, a ciência perderia a sua necessidade.

Esse foi o motivo de nossa insistência em todo o trabalho em estabelecer as mediações que explicassem os classificados em um contexto maior, mostrando os significados que estavam neles e fora deles. A dialética entre o particular e o geral é condição fundamental para conceber o objeto para além daquilo que ele aparenta ser. Esse fundamento tem como princípio a inspiração marxiana através da qual a condição para a interpretação e crítica de uma realidade social passa por uma análise teórica de todas as condições materiais de vida social que se apresentam no objeto.

A dinâmica entre o particular e o geral permite um percurso investigativo composto de uma “viagem” epistêmica do objeto para a concretude das relações que o constituem. Por fim, através das análises e interpretações, o retorno a esse mesmo objeto concebido em uma dimensão maior, síntese das múltiplas determinações. A busca da síntese dialética é condição essencial para a compreensão do caos.

A busca de descobrir o sentido do mundo através da viagem epistêmica do abstrato ao concreto foi o maior desafio desta pesquisa. A negação do movimento de síntese que busque as raízes no passado como fundamento para explicar o próprio presente acabaria por transformar esses gêneros e o próprio classificado em um conjunto de palavras compostas por um vazio de sentido. Com efeito, os gêneros seriam concebidos com vazios de sentido e desprovidos de vida. Sendo a sociedade burguesa uma forma societal marcada pelo dinamismo, o desconhecimento da totalidade e das mediações que a constrói fundamentaria a incompreensão daquilo que ela mesma o é.

Os classificados de jornal são a expressão das concepções hegemônicas de classe do período histórico em questão, a materialização das ideias e ideais burgueses do período histórico investigado. Como bem afirma Marx, as ideias dominantes são a expressão ideal das relações materiais dominantes concebidas como ideias. Muito além do que um mero conjunto de palavras mortas e sem sentido, os classificados expressam a consciência da classe dominante e seu entendimento do mundo em questão.

Essa afirmação coloca em questão o próprio papel dos intelectuais para a interpretação da sociedade. Ao pensamento marxiano, o pensamento é a expressão das relações materiais e sócias concebidas à priori. Marx em “A contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel” demonstra que o poder da teoria como força material está em seu potencial de atingir as massas, algo que só é possível pela radicalidade manifesta em descobrir as raízes investigativas presentes na própria humanidade.

A linguagem tem um papel importante no processo de formação da consciência. Ela expressa a consciência do ser social nas mediações com a natureza, desmistificando qualquer sobrenaturalidade nessa relação. A linguagem possibilita a formação da consciência que difere a espécie humana dos demais animais, atribuindo significado ao sentido de se viver em sociedade.

A formação da consciência impacta no movimento histórico de uma sociedade manifesta na constituição de uma moral social. Marx fomentou o debate sobre a dimensão da moralidade na sociedade capitalista. Entendendo a sociedade composta por classe e frações de classe em conflito e disputa, Marx afirma que a moral de uma sociedade é a expressão da formação moral da classe social que detem o poder.

Todos os períodos históricos foram providos de uma concepção moral justificativa dos atos humanos cometidos. Temos a impressão que a humanidade possui tendência intrínseca ao “perdão” como alívio divino às suas limitações e barbáries. Em nome de uma concepção moral, muito de salvou e se assassinou na história da humanidade em nome dos costumes e dos ditos religiosos. As guerras são justificadas pelos seus atores por concepções morais do seu tempo, independente de sua centralidade econômica e política.

A moral se apresenta em diferentes pressupostos. Na moral feudal cristã, o mal é o mal em sua plenitude e o bem a sua negação. Porém, entende Marx, o mal nem sempre é o mal e o bem não constitui a sua própria negação. Ambos não são totalidades sem contradição. O ser social pode ser mal e bom ao mesmo tempo de acordo com o nível de conflitos e circunstâncias da vida. Uma teoria moral constitui-se em um produto das relações sociais e econômicas de uma sociedade em seu tempo histórico.

A constituição moral é um fundamento que nos permite interpretar os gêneros discursivos manifestos nos classificados de jornal. Tomamos novamente como referência os classificados de jornal referentes à fuga de escravos na região de Campinas. Podemos dizer que nem tudo que é moral é legal e nem sempre o legal é moral. A constituição de uma moralidade em seu tempo naturalizou a escravidão. Desprezando todos os insígnios do sentido de pertencer à espécie humana, o escravagismo, enquanto fase acumulativa primitiva do capital, foi justificado por um conjunto de leis legitimaram a sua existência.

A naturalização da escravidão ocorreu em uma sociedade que foi induzida a esquecer as causas históricas e sociais que criaram a própria escravidão. A naturalização encontrou justificativa em uma sociedade que entendida e governada por uma estrutura jurídica sustentada pela neutralidade. Foi esse princípio que sustentou a altivez e indignação dos senhores de escravos contra aqueles que se rebelaram e fugiram de sua tirania. O desconhecimento das matrizes históricas que criaram a escravidão justificou uma hipocrisia social à qual o algoz se sentia traído pela fuga de sua presa. As afirmações religiosas acompanhadas do entendimento do “presente do presente”, conforme sustentou Agostinho, tal qual demonstramos em outra parte deste trabalho, omitiu o próprio sentido histórico da origem da escravidão. Em outras palavras, a naturalização da escravidão omitiu a vitória militar dos europeus sobre os negros africanos e cruel destino reservado aos derrotados. O enriquecimento do “velho mundo” e das frações de classe burguesas espelhadas pela “Nova Europa”, merecendo destaque o Brasil encontrou uma justificativa divina para a permanência deste brutal processo na história humana.

Desde os jesuítas, a religião atuou como forte sustentáculo das classes dominantes do seu tempo. O eurocentrismo e a centralidade religiosa elegeu os povos indígenas e os de origem africana como abstrações desprovidas de alma vivendo em condição similar aos animais. A negação da história possibilita a existência desses “espetáculos” lamentáveis da história da humanidade. A centralidade do presente entendida por Agostinho têm como pressuposto a existência da Igreja como uma entidade transcendente à própria história. A existência no presente tem como prerrogativa que a Igreja é uma entidade acima de qualquer relação e período histórico e social. Ela transcende a história, pois realiza contínua mediação com o Criador que é imortal. Na prática, por mais irônico que possa parecer, suas afirmativas da luta por uma alma foram convenientes para justificar a fúria dos senhores de escravos manifesta nos jornais. Por um lado, eles perderiam o investimento econômico feito para adquirir um escravo. Por outro lado, a fuga impediria a “salvação” desses escravos os encaminhando para os perímetros do inferno.

Engels em o “Anti-During” dissertou sobre a noção de moralidade na sociedade capitalista. Seu entendimento é que a plenitude da moralidade só seria possível em uma sociedade que conseguisse transcender os antagonismos de classe. A ausência de historicidade nas análises sobre a escravidão pode trazer à tona a indignação contra a escravatura, não permitindo, por sua vez, recuperar o que e quem criou a escravidão.

Neste sentido, nos parece que a historicidade é uma categoria central para se interpretar o sentido dos gêneros discursivos presentes nos classificados de jornais. Marx em o “18 Brumário de Luiz Bonaparte” demonstrou que a humanidade faz a história, mas nem sempre da forma como imagina. O desafio consiste em uma busca pelo passado que não tem como ser apagado. A recuperação da historicidade nos classificados de jornal permite o entendimento das relações do presente com resultante das do passado. Possibilita entender quais são as relações e os processos sociais que estão em disputa. A célebre ação das classes dominantes em se apropriarem dos heróis do passado para desprezá-los quando deles não mais precisar.

Carlos Lucena e Lurdes Lucena